sexta-feira, 17 de outubro de 2025

 

Alastair Crooke – Esperando por imagens de submissão abjeta que não aparecem


A questão é que, nos círculos de Trump de hoje, não só não há medo da guerra, como também existe uma ilusão infundada do poder militar americano. Hegseth disse: “ Somos o exército mais poderoso da história do planeta, sem exceção. Ninguém mais pode sequer chegar perto disso ”. Ao que Trump acrescenta: “ Nosso mercado [também] é o maior do mundo – ninguém pode viver sem ele” .

Leia artigo completo no Brave New Europa

A Tragédia do Império: De Virgílio à Ucrânia

 A Tragédia do Império: De Virgílio à Ucrânia

 

Virgílio, escrevendo há dois mil anos, nos deu um modelo não apenas para a grandeza imperial de Roma, mas também para sua tristeza oculta. Em "Eneida", em meio à fumaça de Troia e ao nascimento de Roma, ele ousou fazer uma pausa. Deu nomes aos sem nome, vozes aos sem voz, aos soldados dispensáveis cujo sangue irrigava o solo do destino. Ao contrário de Homero, que se deleitava com o confronto de heróis, Virgílio rompeu com a hierarquia: mostrou-nos a bucha de canhão, jovens arrastados para guerras que não escolheram, que morreram não por amor ou justiça, mas pela fria aritmética do império.

 Essa dupla visão: glória para Roma, tristeza pelos caídos, continua sendo o eterno paradoxo do império. Augusto exigiu propaganda, e Virgílio a atendeu. Mas, nas entrelinhas, vemos hesitação, quase piedade. O desespero de Dido, as mortes de soldados anônimos, os destroços humanos deixados para trás: essas são as divergências sussurradas de Virgílio. O poeta sabia o que Augusto não queria admitir: que o império se alimenta de sacrifícios, e seu banquete nunca é pago pelos imperadores, mas por aqueles pressionados a servir.


 Avançando dois milênios. Mais uma vez, o roteiro imperial se desenrola. Washington, Londres e Bruxelas, intoxicados por seus próprios mitos, usam a Ucrânia como a ponta de sua lança. Kiev é informada de que está "defendendo a democracia", mas, na realidade, a Ucrânia é transformada em bucha de canhão de Virgílio: vidas jogadas em um moinho, não para preservar sua nação, mas para servir ao império decadente do Ocidente. Os nomes mudam, os trajes são modernos, mas a função permanece a mesma: sangrar pelo destino de outra pessoa.

 

Assim como Virgílio traçou a tristeza por trás da conquista, vemos a tragédia hoje em intermináveis listas de baixas. Uma geração de ucranianos, ensinada a acreditar em um falso destino manifesto alinhado à OTAN, é engolida por uma guerra que jamais poderia vencer. O Ocidente não os lamenta, assim como Augusto não lamentou os troianos anônimos abatidos na estrada de Roma para a glória. Em vez disso, são elevados a abstrações: "heróis", "mártires", "defensores". Mas a realidade é mais simples, mais cruel: são bucha de canhão, recrutados para o roteiro do império, com sua humanidade apagada em favor da propaganda.

 A genialidade de Virgílio foi enxergar os dois lados. A Eneida glorifica a missão de Roma, mas antecipa seu colapso moral. Assim também hoje, testemunhamos a propaganda de "valores" do Ocidente, mas por trás dela há podridão. Este império que finge oferecer civilização só entrega caos, dívidas e guerras por procuração. Assim como Cartago sucumbiu à ambição de Roma, a Ucrânia é consumida pela arrogância de Washington. E assim como a morte de Dido simbolizou os danos colaterais da conquista, a tragédia da Ucrânia não é nobre, meramente sacrificial, não nasce do destino, mas é imposta pelo império.

 A metafísica da guerra e o objetivo final do império convergem aqui: o Ocidente se revela como herdeiro de Augusto, exigindo glória enquanto esconde a decadência. A Rússia, por outro lado, personifica a percepção mais profunda de Virgílio: a de que a civilização deve estar enraizada em algo maior do que a conquista. A de que a guerra não pode consumir indefinidamente o futuro sem destruir o próprio solo que afirma santificar. Moscou se recusa a se deixar reduzir a bucha de canhão no manual de outra pessoa.

 Os gregos e romanos nos ensinaram que impérios ascendem e caem em ciclos, cada um cego por sua própria arrogância. A ambivalência de Virgílio era profética: todo império que ignora a humanidade de sua bucha de canhão cava sua própria cova. Hoje, não é a Rússia que escreve tragédias, é o Ocidente, descartando vidas ucranianas em uma tentativa inútil de reafirmar a hegemonia. Virgílio reconheceria isso instantaneamente.

 A tragédia do império é eterna: o império vive exigindo que outros morram. Virgílio, o relutante profeta da bucha de canhão, previu isso. O vazio da conquista jaz nu, seu teatro exposto como espetáculo. E na Ucrânia, a cortina cai: o "destino manifesto" do Ocidente torna-se seu canto fúnebre. Pois impérios não caem porque são derrotados por inimigos, eles caem porque devoram seus próprios filhos.

 

– Gerry Nolan

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

CRISE EUROPEIA IV

 Crise da Europa IV: O desafio militar

 

Durante a polemica dos drones sobre a Polônia, um ministro polonês disse “ Vá você para a Ucrânia”. A frase foi dita num contexto de pressão dos outros “amigos” da coalização dos indispostos (dispostos). Os amigos cobravam uma ação mais efetiva da Polônia, incluindo o comprometimento em enviar tropas para um lugar chamado Ucrânia.

Sobre o incidente dos drones:

- 19 drones penetraram o território polonês;

- Fotos e relatos dos locais dão conta de que não se tratou de um ataque russo;

- As poucas imagens que apareceram nas redes sócias mostram pedaços de drones colados com esparadrapos, ou seja, montados rudemente, e com características de drones iscas e não drones de ataque;

- Dos 19 drones, só 4 foram abatidos, os demais caíram em território polonês;  

 

Consequências e versões:

 

1  A Polônia abriu uma investigação formal;

2 Várias autoridades polonesas espalharam a suspeita de ataque russo, logo divulgadas amplamente pela mídia oficial ocidental, por todo o Otanistão;

3 A medida em que a hipótese de ataque russo se enfraquecia, por exemplo um cidadão local à a casa que teve o telhado arrancado, afirma que o tal telhado já tinha sido arrancado por uma tempestade no mês anterior, a linha oficial na Polônia foi mudando para um possível ataque da Bielorrússia até que veio à tona a informação de que autoridades bielorrussas tinham avisado Varsóvia sobre os drones. Nesse ponto tá tudo muito confuso.

4 A Polônia está usando o episódio para arrancar mais dinheiro de Bruxelas, enfatizando a necessidade de proteger a fronteira. 

5 Uma versão de origem polonesa da conta que a Ucrânia está usando de bandeira falsa para atrair a OTAN e os EUA para a guerra. Explicando: A Polônia é um país da OTAN. Uma agressão à Polônia poderia levar a entrada formal da OTAN na guerra com envio de tropas. Claro a OTAN está plenamente fazendo parte do conflito, só não assume formalmente, temendo o ataque russo.

A Europa não conseguiu seque deter um ataque de drones iscas que acabaram caindo em território polonês, que só se deu conta do que estava ocorrendo porque a Bielorrússia avisou.

Isso diz muito sobre as capacidades militares da OTAN.

Depois da Segunda Guerra Mundial a Europa estava arrasada economicamente, militarmente. Os EUA financiaram a reconstrução europeia não gratuitamente. Além do custo financeiro, da presença maciça das empresas americanas na Europa, ocorreu também ocupação militar. Os EUA   encheram a Europa Ocidental de bases militares. A Alemanha em especial é uma grande base americana, são dezenas de bases americanas só no território alemão. Os misseis nucleares na Alemanha são dos EUA.   

O resultado é que a Europa não tem exércitos fortes, tecnologia militar de ponta e está muito atrasada na tecnologia de misseis. Só existem três nações com a tríade nuclear: Rússia, EUA e China. A tríade nuclear se caracteriza por ter o poder de fazer um ataque nuclear por água, terra e ar. A França tem alguma capacidade nuclear, a Inglaterra um pouco menos e a Alemanha nenhuma.

O tamanho dos exércitos e sua prontidão de batalha dos exércitos europeus são ridículos perto dos concorrentes maiores. O segundo exército da OTAN é o turco e a Polônia anunciou recentemente a intenção de ser o segundo, sendo os EUA o primeiro, claro. A Alemanha também vem anunciando a pretensão de se tornar esse segundo exército da OTAN e primeiro na Europa Agora, se falamos em divergências no campo do BRICS, e na OCX, não se pode ignorar que a Europa é também profundamente dividida. Se os EUA se afastar da Europa como pretende Trump, a União europeia e sobretudo a OTAN, se esfacelariam em instantes e teríamos um cenário extremamente volátil, com a divisão da Europa em blocos que já estão se formando. Os Estados bálticos formariam o bloco, aliás já estão formando um bloco dentro da OTAN. O centro provavelmente se juntariam (já existe acordo Reino Unido França), A península Ibérica tende a se juntar, talvez com adesão da Itália. Os Estados do leste tenderiam a formar outro bloco.

Por tudo isso, a ideia de uma Europa se preparando para uma guerra contra a Rússia é simplesmente ridícula.   Para terem alguma chance é fundamental segurar os EUA na OTAN, daí o servilismo europeu, daí “o papai Trump”.

Uma comparação muito como entre analistas militares dão conta de outra diferença grave. A capacidade russa de produção é enormemente superior a da Europa. A Europa se desindustrializou muito enquanto a Rússia vem aquecendo sua produção industrial e está com a produção a todo vapor em função do conflito com a Ucrânia.

No entanto, o discurso de a Rússia é um inimigo, opera em várias frentes. Na frente eleitoral, serve para tentar salvar governos liberais sem nenhuma legitimidade como Starmer (Inglaterra), Macron (França) Merz (Alemanha). Serve aos mesmos governos para sua política de rearmamento. É preciso justificar, perante a opinião pública, porque não vão gastar com saúde, educação, segurança, melhorias salariais, moradia porque vão engordar os cofres das empresas de defesa e a proteção dos lucros dos ricos.   

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

CRISE EUROPEIA III

CRISE EUROPEIA III

 

 

Então temos uma Europa que depende essencialmente de si mesma para sobre viver.

E aí. Como fica?

Bem vejamos:

 

- Não há mercadorias baratas da China, ou vem sendo reduzidas pelos próprios europeus;

O ouro da África, vários países africanos vêm lembrando que é deles e tomando o que tem para si    

- A energia barata, também por iniciativa da Europa, sumiu. Aliás, mais um prego foi posto nesse caixão com o acordo entre China e Rússia para a conclusão do Power Sibéria II, simplesmente um fluxo absurdo de gás que vai fluir direto da Rússia, passando pela Mongólia e chegando a China, por um prazo mínimo de 30 anos. O Power Sibéria II destinava-se à Europa.

Assim a Europa vem declinado lenta, mas constantemente ao log das últimas décadas.

 No entanto esse movimento para a perda de importância econômica da Europa sofreu uma aceleração acentuada e continua a parti de 2022.

Trata-se da OMS (Operação Militar Especial) da Rússia na Ucrânia. Em meu podcast e no blog já cometamos sobre esse evento, mas faremos um novo post esclarecendo melhor essa questão.

O fato é que a OMS precipitou processos já em andamento. Com a Operação russa em andamento a Europa se uniu aos EUA numa série de sanções contra a Rússia. O efeito danoso dessas sanções foi aprofundado pela explosão dos gasodutos NortStream I e II pelos EUA/Europeus. Fato denunciado pelo jornalista estadunidense Simon Hertz, e afirmado em declarações de autoridades estadunidenses em entrevistas.

O resultado de tais acontecimento vem sendo um aprofundamento da crise europeia que, com os fatores mencionados anteriormente vem assistindo suas economias descer ladeira abaixo.

A essa altura você pode, ok, mas, e os europeus, as pessoas na Europa, como elas estão reagindo a esses eventos?

Vamos lá

- Os preços do gás na Europa tem subido, dificultando a vida das pessoas. Num primeiro momento os governos europeus adoram uma política de subsídios às famílias e as empresas para aliviar o aumento do custo do gás. A capacidade dos governos fornecerem esses subsídios secou.

- O preço dos alugueis estão muito elevados, levando a uma crise de moradia. O irônico nisso é que se você quiser reclamar de moradia na Alemanha por exemplo você deverá se encaminhar para a maior proprietária de imóveis na Alemanha, a Blackstone, dos EUA. Os estados europeus não têm investimento em moradias, isso é, praticamente tudo, setor privado. O trabalhador alemão, britânico, português, espanhol e outros tem gasto mais de 50% de sua renda só para ter um teto, não necessariamente uma casa, onde dormir. Adquirir uma casa proporia é praticamente impossível.

As pequenas e medias empresas na Europa estão sendo sufocadas com os aumentos nos custos de produção. Mas, do outo lado, o sistema financeiro, a ciranda, o grande cassino da especulação, das fintecs, das ações, das criptomoedas, prosperam porque essa é a nova lógica do capital hiperfinanceirizado que caracteriza a fase atual do capitalismo. 

     

 

   

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

A CRISE EUROPEIA II

 A CRISE EUROPEIA II

 

Pense comigo. De onde vem a riqueza da Europa?

Os caras não produzem diamantes, são péssimos no ouro, no petróleo, no gás, nas terras raras, e, no entanto, a França é o sétimo produtor mundial de ouro. De ode vem esse ouro? Cai do céu? São frutos de doações generosas de outras nações?

Não. Essa posição da França é fruto da exploração de suas antigas colônias/ neocolônias atuais notadamente situadas na África. De lá sai ouro e outros minerais valiosos que contribuem para a aparência, cada vez mais aparecia de riqueza e poder dos europeus.

Veja. Enquanto os impérios coloniais europeus sugaram a Ásia, África e América Latina, foi possível posar de grande, de superpotência de “lugar onde o sol nunca se põe“.

No entanto, o desenvolvimento econômico social político nessas regiões vem alterando significativamente essa situação.

- Em primeiro lugar a Ásia cresceu e apareceu. Claro a estrela da festa é a China, mas Malásia, Vietnam, Singapura, Indonésia, Coreia do Sul, Japão e outras régios do continente desenvolveram-se muito inclusive em termos de tecnologias de ponta.  Não são mais um foco de exploração livre dos países europeus, nem mesmo dos EUA.

- Em segundo lugar a África vem conhecendo um movimento de renascimento da construção de um novo sentido da libertação do jugo colonial. Mesmo com as independências dos anos 50, 60 a estrutura colonial não se rompeu completamente, esquemas neocoloniais continuam fortemente enraizados no continente. Até por conta disso, vários países africanos vêm expulsando a presença física de europeus do continente. Notadamente os países do Sahel vem expulsando tropas francesas desarticuladas bases militares francesas e rompendo seus últimos laços de dependência com a França. Recentemente foi o Senegal que deu prazo até 30 de setembro para a s tropas francesas deixarem o país.

- Em terceiro lugar a presença europeia na América Latina e Central foi completamente obliterada pelos Estados Unidos desde fins do século XIX, processo consolidado no século XX.

- Em quarto lugar o Oriente Médio (Ásia central para ser correto). No início do século XX era uma festa, petróleo abundante e barato. Bastava comprar algumas famílias monárquicas árabes e persas e fazer a festa. Claro aqui e ali era preciso instigar ou alimentar divergências religiosas sociais o que fosse para evitar unidade de proposito e desenvolvimento autônomo desses povos, ao mesmo tempo, perfurar, perfurar poços e encher a pança de petróleo barato. Com o tempo vem os problemas. Os árabes foram ficando mais “espertos” quanto a exploração comercialização do petróleo, agruparam-se na OPEP. Para completar os iranianos meteram na cabeça que o petróleo deles era de fato deles. E mais, meteram na cabeça que deveriam assumir a produção e comercialização do SEU petróleo (a revolução islâmica no Irã). Daí a solução mágica foi armar o Iraque e convencê-lo de que era uma muito BOA ideia se meter numa guerra destrutiva com o Irã.


Bom para não alongar o texto, sugiro que você passe os olhos na produção dos tink thanks da época, você sabe os tink thanks atlanticistas, esses centros de produção do "Saber Ocidental", posso resumir para você dizendo que esses geniais senhores trabalhavam com a ideia de controlar toda a produção de petróleo do Oriente Médio, seja por subordinação, seja por destruição dos que resistiram      

A CRISE EUROPEIA I

 A CRISE EUROPEIA I

A Europa, nas últimas três décadas, aprofundou seu grau de dependência dos EUA, aprofundou sua desindustrialização e, com a guerra na Ucrânia, caminha a passos largos rumo a falência completa. Falo da insanidade das elites europeias que aceitaram as imposições dos EUA e aderiram às sanções contra a Rússia e a pressão contra a China.

De uma só tacada a Europa abriu mão:

Mapa da Europa

-  Da energia a baixo custo oriunda da Rússia, fundamental para a indústria. As estimativas variam entre 4 a 7 vezes pegos hoje pela Europa do gás e petróleo vindo dos EUA, sem falar na infraestrutura necessária para receber esses recursos. Com isso, os custos de produção na Europa aumentaram absurdamente, levando a uma crise que se verifica no fechamento de muitas empresas e na queda dos lucros de gigantes europeias como a Wolksvagem, BMW e outras. Junte-se a isso as tarifas e sanções, e o custo de produzir veículos na Europa vem se tornando proibitivos. O resultado de tudo isso vem sendo uma lenta, mas constante, perda competitividade do mercado europeu como um todo.

- O mercado chinês é extremamente importante, pense, 1.3 bilhão de pessoas. Não só é muita gente, mas uma economia cada vez mais rica, prospera, e com a intenção deliberada de elevar o padrão de vida da população para um nível cada vez maior. Ao contrário do senso comum no Ocidente, o trabalhador na China vem sendo cada vez mais bem remunerado. O que explica a redução de custos, que faz com que a China consiga produzir muito e a baixo custo, é a intensa transformação tecnológica, a altíssima especialização do operário Chinês e as políticas do governo chinês que vem se esforçando e trabalhando para ampliar, criar, renovar as condições que permitem acelerar a capacidade produtiva do país.

Recentemente a representante da Europa, Kaja Kalla esteve com o primeiro ministro chinês, Wang Yi. E o que fez essa senhora? Passou meia hora dando lições à China sobre sua sociedade e sua política. É uma completa sem noção. Wang Yi, um dos melhores diplomatas do mundo, teve que ouvir um monte de platitudes e coisas sem sentido. Parece que além da crise econômica, a Europa sobre de demência, falta de massa cinzenta, capacidade de análise e senso de realidade, isso com raras exceções como a Hungria, que mantem uma relação intensa com a China.

O mercado chinês representa para Europa, um acesso a uma mão de obra qualificada e ainda com um custo menor do que o custo europeu. Também é um mercado ótimo para aquisição de mercadorias mais baratas e um mercado de componentes vantajoso para a indústria europeia.  Enfim, a Europa precisa muito maias da China que a China da Europa. O que a Europa ainda tem de atraente para a China ou qualquer outro país é, por enquanto, uma classe média que ainda pode gastar, turismo, queijos e vinhos. E só, não tem mais nada ali que seja relevante, nem mesmo para os países africanos que estão expulsando os europeus de se território.

No entanto a elite europeia vive nesse jardim do Borreu (ex ministro das relações exteriorizes da OTAN), segundo o qual a Europa é o paraíso e o resto do mundo o inferno.    

Vou encerrar com um raro momento de realismo.

“E o que realmente me preocupa, e admito, me incomoda, é o fato de que nós, europeus, atualmente não desempenhamos no mundo o papel que realmente queremos desempenhar e que deveríamos desempenhar para que nossos interesses sejam devidamente protegidos. ”

Merz (primeiro ministro da Alemanha).


REFERÊNCIAS 

Michael Hudson

Richard Wolff

terça-feira, 10 de setembro de 2024

BRASIL: DUAS CRISES E SEUS DILEMAS

 

  ATO I

A saída defenestrada do ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, encerra um capítulo vergonhoso do atual governo Lula. O mundo assistindo a um genocídio ao vivo, 24/7, realizado pelo Estado bandido, assassino, racista, fascista de Israel, e o ministro de um país, cujo governo se arvora progressista, expressa sua cumplicidade pela omissão vergonhosa e injustificada. Bela frase não torna alguém interessante, e o palavreado versus as ações do ministro, mostram isso.  De resto confirma a ideia de que não se deve julgar o homem pelo que ele diz de si, ou pela imagem que projeta. Se você professa crença inabalável nos ideais humanistas não pode ter conta si denúncias de assédio moral contra funcionários e muito menos, de assédio sexual. Assim um balanço preliminar da atuação do ministro desfaz os mitos que se criaram em torno dele.

Quanto a ministra da Igualdade Racial, nada fez que justificasse a criação do seu ministério, muito barulho com ações muito afirmativas como usar avião do governo para vaiar e ironizar torcida adversária, enquanto a violência contra a população pobre e negra grassa os estados brasileiros com uma polícia e governos estaduais sancionando a violência gratuita contra os irmãos.

A condução dos casos envolvendo o ministro e a ministra mostra a falência do discurso de compromisso com a questão racial e o combate aos abusos contra as mulheres no governo. Os fatos vieram à tona agora, mas já eram de conhecimento, segundo tudo o que se pública e não se desmente, há pelo menos um ano.

Isso quer dizer: zero regras de conduta, zero prevenção de crise, muito blá blá blá sobre nossas diferenças nessas questões em relação aos conservadores. Em nossa opinião, todo conservador é um hipócrita, pelos menos ainda não vimos uma exceção, mas essa crise mostra que também entre nós, da esquerda, tem muita hipocrisia.

Um julgamento definitivo do ministro no que se refere a sua conduta pessoal aguarda o esclarecimento dos fatos, com as devidas apresentações de provas, bem como o esclarecimento sobre os fatos que deverão ser prestadas pela ministra. Mas, quanto a ação política dos dois nos ministérios, nada menos do que decepcionante. Faltou ser de esquerda.

 

ATO II

 

Sete de setembro. A extrema direita convocou um ato cercado de dúvidas que se confirmaram. Primeiro não bombou como se supunha, o esforço para apresentar o ato do dia sete como vitorioso, só funcionou mal e mal entre as hostes extremistas.

Fatos que evidenciaram algumas suposições:


1 – Bolsonaro, com seu habitual tato político e clareza de pensamento, vociferou: “Arranquem a bateria desse carro”.  Segundo ele, só o grupo dele estava ali para defender coisas serias, o resto é balburdia, etc etc.  O resto, ao qual o inominável se referia eram Pablo Maçal, seu calo mais novo e/ou o antigo calo, Carla Z.

2 – Pablo Maçal, precisamos falar de Pablo Maçal. Maçal aparece, estrategicame
nte, no final do ato, na fala do inominável, onde mais ele poderia chamar a atenção, no meio da massa, acenando, agitando a galera. Maçal teria tentado subir no palco, mas foi barrado por Mala Vaia e taxado de oportunista.

3 – Uma hierarquia foi evidenciada. No palco principal a família e convidados, o resto é segunda divisão. O que ficou evidente na fala de Carla Z, ao se referir à Dallagnol. Segundo ela, injustiçado até por quem deveria apoia-lo.

4 – Ricardo Nunes é oficialmente apoiado por Bolsonaro, pois bem. Nunes simplesmente compôs o palanque principal, em sua cidade. Não teve fala, nem sequer foi anunciado. Apenas uma vaca no presépio.  

Por fim, a extrema direita está abalada com o fenômeno Pablo Maçal e,
claramente cindida. Resta saber como irá se reagrupar para disputar 2026. No estágio atual, Maçal ameaça por de lado, o projeto Tarcísio 2026, tal a desenvoltura desse ... “rapaz”.

 

Em conclusão, de novo ele, Pablo Maçal. Maçal hoje não só divide aguas em seu campo, mas abala a esquerda. Maçal desafia a esquerda a ser esquerda, a sair do liberalismo modorrento, sem graça e sem apelo, no qual se meteu.

A julgar pelas ações do governo atual nos campos econômico, política externa e política institucional, os trabalhadores do Brasil precisarão de uma nova esquerda radical. Urge começar um trabalho de organização da classe trabalhadora no sentido da construção de uma sociedade socialista. O apelo à Maçal, de parte de nossa juventude, evidencia um desejo latente por mudanças, quaisquer mudanças que signifique romper com tudo que está aí.     

Isso está evidenciado nas eleições estaduais na Alemanha, onde a extrema direita e a esquerda um pouquinho só esquerda, esquerda, foram as duas forças políticas que mais chamaram a atenção das pessoas. Também na França, onde a França Insubmissa e Le Pen botaram os liberais de quatro. França, aliás, onde toda a hipocrisia das democracias liberais esta escancarada, com o golpe de Macron.    

Viva Chaves, Viva Bolivar!

domingo, 5 de maio de 2024

FILME: RASTROS DE UM CRIME

 

Rastros de um crime (2021), dirigido por Erin Eldes

 

 

Não é um rambo, ou o glamour das altas esferas da sociedade estadunidense. Pelo contrário, temos aqui um retrato de como vive atualmente a classe pobre, branca, nos EUA.

Não, não é um filme panfletário, é um quadro em preto e branco de uma realidade crescente. Um ex vendedor de uma concessionária de veículos que trabalha como limpador de casas, que vive coma mãe em um trailer, um jovem “empreendedor” que vive falando em marketing e vive como revendedor de maconha, um jovem casal que se muda recentemente para um trailer em frente ao limpador de casas.

A classe média aparece com dificuldades financeiras expressas na dispensa do limpador de casas e que prestava um serviço regular na casa do cliente.

Ao dispensar nosso limpador de casas o cliente, recomenda uma vizinha mais abaixo que talvez precise dos serviços dele. A Vizinha, uma cantora frustrada contrata nosso limpador para achar o filho que a havia abandonado. Ela vive só, e sofre de uma doença terminal, está com os dias contados.

O filme conta com elenco simples, nada estelar, mas muito competente. É uma história singela, mas bastante eloquente. Um ótimo filme que faz aquilo que acredito que um filme tem que fazer: dar o que pensar, levar você a refletir sobre a realidade.

Por um lado, retrata a decência da classe trabalhadora branca estadunidense, a falta de perspectivas de pessoas excluídas do processo de produção e consumo. Por outro lado, uma classe média, se segurando como pode, cortando despesas e em estado terminal.

Se você olhar para a realidade dos Estados Unidos vai perceber como impactante é esta realidade. A rápida financeirização da sociedade, esta excluindo camadas cada vez maiores de cidadãos, levando-os a viver o que Marx, outrora, chamou de lumpemproletariado, um grupamento cada vez mais à margem da roda da economia, vivendo nas franjas do sistema.

Isaias Almeida

 

terça-feira, 30 de abril de 2024

O SUL GLOBAL COMO PROJETO POPLÍTICO

 



O termo “Sul”[1] apareceu no vocabulário internacional em 1980 [2] e sua associação com o adjetivo “Global” ocorreu a partir do final da Guerra Fria, com a intensificação do discurso e das dinâmicas da Globalização (DIRLIK, 2007). Devido à referência aos países pobres e “em desenvolvimento” em contraste com os mais ricos e desenvolvidos, o Sul Global é herdeiro do conceito de “Terceiro Mundo”, [3] atualmente em desuso. Em ambas denominações, a classificação hierárquica entre os países considera o estágio de desenvolvimento econômico em direção à modernidade como parâmetro principal. Por sua vez, o entendimento de “modernidade” e “desenvolvimento” é fortemente associado à ideia de progressão ou evolução. Entretanto, assim como o Terceiro Mundo, o Sul Global não pode simplesmente ser visto como um conjunto de países não desenvolvidos e não modernos, localizados nas zonas ex-coloniais do globo. Existem diferentes significados para as duas categorias, as quais não devem ser compreendidas em um sentido exclusivamente geográfico ou territorial. Ambos termos foram capazes de projetar uma identidade geopolítica subalterna, reivindicando um diferente caminho de pertencimento no sistema e na sociedade internacional.

LEIA MAIS

quarta-feira, 17 de abril de 2024

PROTESTO DE FUNCIONÁRIOS DO GOOGLE

 

Sem tecnologia para o apartheid: funcionários do Google são presos por protestar contra o contrato de US$ 1,2 bilhão da empresa com Israel.


Integra da matéria no Democracy now 

quinta-feira, 11 de abril de 2024

CHINA: O pesadelo do Ocidente

 




A China está a construir muitos veículos eléctricos e painéis solares e quer vendê-los a baixo custo durante uma emergência climática – e devemos acreditar que isto é uma coisa má?

Michael Roberts é economista na cidade de Londres e um  blogueiro prolífico .

Postagem cruzada do blog de Michael Roberts

Artigo completo dessa excelente analise do Michael Roberts você encontra na Brave New Europe.

https://braveneweurope.com/michael-roberts-chinas-unfair-overcapacity


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

SÉRIE: ELEIÇÕES AMERICANAS

 


Eleições americanas

Entenda o processo

Primeiro, não há lei eleitoral nos EUA, a legislação eleitoral é definida nos Estados e não são leis fixas. O regulamente eleitoral é fluido, podendo mudar de uma eleição para outra. A estrutura é montada para favorecer sempre a plutocracia no poder.    

Quem pode se candidatar? Qualquer um, para manter a aparência de democracia. Qualquer natural dos EUA pode concorrer à presidência, claro que qualquer um tem chances zero de se eleger, só integrantes da plutocracia, na prática, podem ser eleitos.

Primeira fase: As Primarias

De janeiro a junho cada partido realiza um processo de escolha de candidatos, as primarias, nas quais todos os pretendentes de cada partido concorrem entre si. Ou seja, em cada partido há uma competição para saber quem vai ser o candidato do partido.

Os custos da campanha correm por conta de cada candidato, não há financiamento público de campanha. Dessa forma, cada candidato registra sua intenção na FEC (Federal Election Commission) e se torna apto a angariar fundos.

Ai começam as restrições à participação popular. Você precisa de muita grana para ser candidato. Na última eleição, por exemplo, Biden gastou mais de 900 milhões, quase um bilhão de dólares.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Imperialismo em análise

The State of Capitalism: Economy, Society, and Hegemony


Resenha do livro de Mathew D. Rose

 

Ao terminar The State of Capitalism: Economy, Society, and Hegemony, do professor de economia da SOAS Costas Lapavitsas e dos outros dez membros do Coletivo de Redação EReNSEP, minha pergunta era: por que não estão sendo escritos mais livros como este? Se você não é economista como eu, mas lê muito sobre economia política, existem inevitavelmente lacunas na informação que se adquire. Isso muitas vezes resulta na incapacidade de conectar os pontos, permitindo reconhecer o quadro geral. Lapavitsas e os seus colegas fornecem uma análise completa sobre a financeirização mundial e o papel dos estados centrais e da hegemonia dos EUA, concentrando-se no período que se segue à Grande Crise Financeira até hoje, mas sem ignorar as origens históricas destes desenvolvimentos.


Devo admitir que tenho uma predileção pelos economistas marxistas por livros como este, que cobrem um tópico tão amplo, pois possuem o foco e a disciplina necessários para realizar uma análise tão substancial. O Estado do Capitalismo, no entanto, não é dogmático, incorporando outras perspectivas heterodoxas. Costas Lapavistas é um analista e escritor perspicaz, o que lhe permite executar um projeto como este com o que parece ser uma grande facilidade. Com as contribuições dos demais membros da EReNSEP, o livro apresenta um grande conhecimento aprofundado em diversos temas.

O livro está dividido em três partes. A primeira, “Emergência de Saúde Imprevista”, que analisa as respostas caóticas dos governos dos principais países à pandemia de Covid, resultado de políticas de saúde pública neoliberais. Isto inclui o regime autoritário resultante dos mesmos governos durante a pandemia e a transformação do desastre num boom económico para a anteriormente tão criticada Grande Indústria Farmacêutica. Como aprenderemos mais adiante neste livro, a crise financeira que se seguiu seria um benefício igual para a indústria financeira nos países centrais. Esta seção compõe apenas cerca de 20 páginas deste trabalho de 360 ​​páginas. Não é claro por que razão foi dada tanta importância a isto, embora a pandemia continue a reaparecer ao longo do livro como uma espécie de metáfora para o desastroso desenvolvimento político, económico e ambiental do capitalismo ocidental.


A segunda parte intitula-se “O Estado e a acumulação interna no centro”, que é dedicada ao desenvolvimento da financeirização nas nações centrais nos últimos quarenta anos. Mudança de financiamento baseado em bancos para financiamento baseado em mercado. A sua avaliação extensiva começa por examinar as causas da Grande Crise Financeira de 2007-2009 e segue o caminho da evolução da acumulação interna e do capital especulativo nas economias centrais no seu rescaldo, o “Interregno”. Durante a Grande Crise Financeira, testemunhámos como os bancos centrais dos principais países se tornaram “negociantes de títulos de última instância” graças ao seu monopólio de moeda fiduciária. Aquela tinha sido principalmente uma crise bancária privada e estes tinham sido supostamente refreados para evitar a repetição de tal evento, limitando a sua especulação por sua própria conta. Em seu lugar, na década seguinte àquela crise, o financiamento paralelo cresceu astronomicamente. Estes eram ainda mais vulneráveis ​​às turbulências financeiras, como o mundo descobriria quando a Covid eclodiu e, mais tarde, a guerra na Ucrânia. Nos EUA, estes não só estavam a ser controlados de forma insignificante pela Fed, como também o seu desenvolvimento estava a ser acelerado. Quando a crise financeira pandémica eclodiu, foi a Fed que veio em socorro do sistema bancário paralelo e das empresas nas quais estes tinham investido pesadamente. Isto significou, como foi o caso na Grande Crise Financeira, uma expansão maciça da dívida pública (sendo atualmente usado como argumento para reintroduzir a austeridade), desta vez muito maior. Os autores acompanham e analisam estes desenvolvimentos, incluindo aspectos da crise pandémica, como a rápida inflação a partir de 2020.

“Estados e Capitais na Economia Mundial” é a terceira e última parte do livro. Isto centra-se principalmente na relação política e económica entre as nações centrais e periféricas, especialmente o papel hegemónico dos Estados Unidos e levanta a questão de até que ponto isto está a ser ameaçado pelas nações periféricas, especialmente a China. O livro aparentemente foi escrito antes do recrudescimento e expansão dos BRICS, mas se enquadra perfeitamente na análise dos autores.


O imperialismo transcendeu da intervenção militar para a intervenção financeira. Enquanto as hegemonias globais anteriores, como a Grã-Bretanha, dependiam da sua marinha para impor a sua predominância, a única hegemonia de hoje, os EUA, fá-lo através da sua moeda dominante, embora tenha o poderio militar predominante do mundo, se necessário. Isto foi reforçado pelas coligações e instituições multilaterais internacionais que criou para apoiar o seu domínio internacional, como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e a NATO. Tudo isto permitiu a expansão da globalização, que desencadeou o seu domínio financeiro internacional, auxiliado pela sua capacidade de ditar “o quadro jurídico, institucional, financeiro e monetário da economia mundial com o objetivo de facilitar a obtenção de lucros, sempre dentro de uma hierarquia de nações centrais e periféricas”. O desenvolvimento orgânico da hegemonia dos EUA é amplamente analisado nesta seção

Esta hegemonia dos EUA está atualmente a ser desafiada, em grande parte devido à ação dos próprios EUA. Não só permitiu e apoiou a ascensão económica da China, que se tornou um sério concorrente geopolítico e económico, mas também o seu congelamento arbitrário das reservas em dólares do banco central russo diminuiu a credibilidade do dólar americano como moeda mundial.

 

Os autores dedicam secções desta parte do livro a “O Desafio Hegemónico Chinês”, “A Doença da Europa” e “A Ecologização do Capitalismo”, o último dos quais trata da destrutividade ambiental inerente ao capitalismo e da tentativa destes mesmos atores lucrarem com a luta contra a crise climática que eles próprios criaram e continuam a perpetrar.

O livro termina com um apelo aos esquerdistas para que desenvolvam um programa político como alternativa ao capital privado, permitindo uma intervenção forte para restaurar não só a justiça social e económica, mas também a democracia.

Publicado originalmente no Brave New Europe


sábado, 13 de janeiro de 2024

CONHEÇA MELHOR O IÊMEN

 


Saná Capital do Iêmen
O golfo de Aden é um golfo situado no mar de Omã, no norte do oceano Índico, entre a Somália, no Chifre da África, e o Iémen, na costa sul da península Arábica. O seu nome provém da cidade de Aden, na extremidade sul da península. O golfo conecta-se, ao norte, com o mar Vermelho, através do estreito de Babelmândebe, com mais de 30 km de largura, e tem o mesmo nome da cidade portuária de Aden, no Iêmen.

 

Historicamente, o golfo de Áden era conhecido como "golfo de Berbera", em alusão à antiga cidade portuária somali, situada na margem sul do golfo, na atual Somalilândia. Todavia o desenvolvimento da cidade de Adem, durante a era colonial, fez com que o nome de "golfo de Aden" prevalecesse sobre a antiga denominação.

Este mar marginal foi formado há cerca de 35 milhões de anos, com a separação das placas tectónicas africana e arábica e faz parte do sistema do grande vale do Rift.

O golfo de Aden é uma via marítima essencial para o petróleo do golfo Pérsico, tornando-o muito importante para a economia mundial. Possui muitas variedades de peixes, corais e outras criaturas marinhas, devido a sua baixa poluição. Os principais portos são Aden (no Iémen), Berbera e Bosaso (ambos na Somália).

 

Ele não é considerado seguro, visto que a Somália que lhe é limítrofe, é um país instável, e o Iêmen não possui forças de segurança suficientes na região. É uma das principais áreas de pirataria mundial, extremamente perigosa para a navegação. Além disso, vários ataques da guerrilha iemenita foram efetuados no golfo, como o do USS Cole.

 

Hutis (al-hutis ou houthis, em alusão ao nome dos seus dirigentes, Hussein Badreddine al-Houthi e seus irmãos) é a denominação mais comum do movimento político-religioso Ansar Allah, (em árabe: 'partidários de Deus') maioritariamente xiita zaidita (embora inclua também sunitas) do noroeste do Iêmen.

 

Hussein Badreddin al-Houthi, líder do grupo, foi morto em setembro de 2004, por forças do exército iemenita. Outros integrantes da liderança houthi, incluindo Ali al-Qatwani, Abu Haider, Abbas Aidah e Yousuf al-Madani (um genro de Hussein al-Houthi) também foram mortos pelas forças governamentais iemenitas.]

 

Em 2014, apoderaram-se de uma grande parte do país, incluindo a capital Saná. Em março de 2015, a Arábia Saudita criou uma coligação militar composta por cerca de quinze países, entre os quais os Emirados Árabes Unidos e o Egito, para derrotar os Houthis e repor no poder o governo do Presidente exilado Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi. Os Houthis mantiveram o controlo do antigo Iémen do Norte.

Parte do grupo tem sido referida como um "poderoso clã", denominado Ash-Shabab al-Mu'min ( em português, Jovens Crentes) .

 

A seguir um texto sobre a história da divisão política do Iêmen publicado originalmente no site https://www.doisniveis.com/oriente-medio/iemen-a-historia-de-um-pais-dividido/.

 

Trata-se de um texto descritivo e que vem bem a propósito do nosso blog.

 

Para um entendimento mais analítico ouça nosso podcast em

 https://podcasters.spotify.com/pod/show/isaiasalmeida


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

GUERRA NA UCRÂNIA: IMPLICAÇÕES

 


GUERRA NA UCRÂNIA

 POR: ISAIAS ALMEIDA*

RESUMO

 

De dezembro de 2021 a janeiro de 2022, a Rússia tentou forçar uma negociação com o Ocidente para resolver a questão do armamento constante da Ucrânia, argumentando que isso colocava em risco a segurança da Rússia. Isso ocorreu depois de a Ucrânia, por instigação do Ocidente, continuar a se armar e atacando as regiões de maioria russa dentro da própria Ucrânia. Estimativas da ONU dão conta de 10 mil mortos nesses ataques desde 2014, quando um golpe na Ucrânia destituiu um presidente pró Rússia  colocando em seu lugar um presidente pró Ocidente. Na época, Odessa foi duramente castigada por resistir ao golpe e a Crimeia, depois de um plebiscito, decidiu ficar com a Rússia.

Houve uma frenética insistência Russa, inclusive com a divulgação, que a mídia Ocidental fez questão de ignorar, de documentos enviados a Washington pela chancelaria russa, pedindo uma rodada de negociações para evitar o pior.

Diante das negativas do Ocidente a Rússia foi forçada a entrar na Ucrânia para proteger o Dombas, região de maioria Russa. Assim, em fevereiro de 2022, tropas russas entraram em Donetsk, Karkov e outras regiões, o exército russo avançou até perto de Kiev, capital da Ucrânia. A essa altura a Rússia ainda queria evitar a guerra, já que na visão dos russos trata-se de uma guerra civil, são povos eslavos, com raízes no império russo.

Em março de 2022, a Rússia busca negociações para evitar a continuação das hostilidades, mas uma ação efetiva de Boris Johnson e dos EUA frustram as tentativas de negociação. Assim começa a guerra.

A Rússia invade os territórios e vários são anexados, mas a Ucrânia devidamente armada e treinada pelo Ocidente reage, reconquistam pequenas áreas, mas não detém o avanço russo.

Nesse ponto é preciso esclarecer, o Ocidente apostou nesse conflito com a esperança de quebrar a resistência russa à uma integração subordinada aos interesses da OTAN e dos EUA. Não funcionou.

Vejamos os objetivos do Ocidente:

- Desgastar a capacidade militar russa;

- Destruir a economia russa através de pesadas sansões;

- Criar uma crise interna de tal ordem que levasse a queda de Wladimir Putin.

Bem, nenhum dos três objetivos foram alcançados.

A indústria militar russa se reestruturou mais rápido do que o previsto, além de ter em alguns campos, uma clara vantagem tecnológica em relação ao Ocidente.

As sansões contra a economia russa provocou dois efeitos: levou a Rússia a aumentar seu comércio com Oriente e a Ásia, graças as suas imensas reservas de gás e petróleo e produtos agrícolas e, uma economia que se mostrou bastante resiliente aos boicotes ocidentais, além de ter capacidade de substituição de importações acima do esperando no Ocidente.

Acordos de longo prazo foram assinados entre Rússia e China e entre Rússia e Índia, uma maior aproximação com o Irã e a Coreia do Norte, garantiram a Rússia inclusive acesso a mais armamentos.

Enquanto as economias da Zona do euro despencam a Rússia vai ter crescimento. Asa previsões desse ano para o ano 2023 são de 2,8 para Rússia e 0,6 para a zona do euro

Outro efeito das sanções foi provocar, acelerar a crise na Europa A questão habitacional se tornou crônica. Na década de 1970 os europeus gastavam em média 1/5 do salário com aluguel, hoje pode variar de 50 a 70%, a solução para muitos tem sido se mudar para longe dos centros urbanos e vivenciar o que os trabalhadores do mundo em desenvolvimento vivenciam, ter que passar horas no transporte para o trabalho. Para o europeu é uma experiência nova.  

A destruição dos Nortstream, os grandes gasodutos partindo da Rússia com destino ao resto da Europa, orquestrada pelos EUA, colocou a Europa numa situação crítica, tendo que pagar aos americanos um valor até 7 vezes maior que o oferecido pelos russos. A classe trabalhadores nesses países é quem está sofrendo as consequências dessa estupidez.

Quanto a crise interna na Rússia com a derrubada de Putin, também não correu como previsto nos sonhos molhados dos otanicista e atlanticista.

Putin enfrentou uma tentativa de motim, organizada por Prigozhin, o homem do PMC Wagner, empresa privada militar, importante na conquista de Barkmut, o motim foi facilmente debelado e Prigozhin acabou morto. O episódio reforçou a autoridade de Putin e ao que tudo indica, uniu ainda mais o país.   

No terreno militar as coisas não vão nada bem para as forças Ocidentais. Em julho de 2023 foi anunciada, com pompa e circunstância, uma contraofensiva ucraniana que poria a Rússia de joelhos. Nós estamos em janeiro e, nada ainda.

A tal contraofensiva se deparou com uma bem armada defesa Rússia em toda a linha de contato. O exército ucraniano se viu preso em um moedor de carne em Barkhmut, (Artemovsk em russo). Depois de pesadas perdas em homens e equipamentos por parte dos ucranianos, a Rússia tomou Barkhmut, e agora mais recentemente conquistou Marinka e avança para Adveevka.

A questão militar será objeto de um boletim a parte.

Vamos tratar das implicações desse conflito. A brutal ofensiva ocidental em termos de sanções provocou vertigens no sul global, muitos países começaram a raciocinar da seguinte forma. Se um país desagrada ao império, eles simplesmente tomam todo o seu dinheiro? É assim que a banda toca?

Ah mais isso é com a Rússia. Acontece que a Rússia é uma potência nuclear, se faz isso com a Rússia, o que não fará conosco? Veja a Venezuela, foi literalmente roubada. Ai já viu, um monte de gente fez fila nas portas dos BRICS.

2023 marca um momento em que o grito de liberdade se transformou na seguinte expressão: Desdolarização. Resultado, a 20 anos atrás 70% das transações internacionais entre países eram feitas em dólar, hoje está em 50%. Só não caiu mais ainda por que a China tem zilhões de ativos em dólar, mas tanto China quanto outros países vêm diminuindo sua participação na farra que os EUA fazem com sua moeda.   

Os BRICS tomaram um novo folego ao serem vistos cada vez mais com uma alternativa ao ”mundo baseado em regras do Ocidente”, as regras deles, para benefício deles claro.

Como está cada vez mais evidente que a guerra na Ucrânia não vai dar os frutos pretendidos o Ocidente se volta cada vez mais para a crise no Oriente Médio, para além do genocídio em Gaza, está a questão de controlar o Oriente. Durante muito tempo os EUA nadaram de braçada na região, manietando os conflitos regionais a seu bel prazer.

Um dos atos mais perversos foi o ataque ao Iraque para que este se pusesse sob seu controle. Fracassou na medida em que, mesmo derrubando Saddam com toda sorte de mentiras, não conseguiu estabelecer um controle efetivo da região. O Iraque, pós invasão, se tornou uma terra arrasada com altas no custo de vida, parte da população na pobreza quase absoluta, e nada de reconstrução do país, muito menos da sua economia. Resultado, o Iraque está cada vez mais próximo da China e da Rússia, com o atual governo trabalhando ativamente para se livrar de uma vez por todas, da presença militar americana.

O Afeganistão vivou um atoleiro do qual os EUA saíram com o rabo entre as pernas, e gente pendurada nos aviões.

A Síria foi destruída por puro capricho, sem nenhuma necessidade, sem nenhum ganho visível, para o povo sírio certamente não, está sendo salva pela Rússia, que está ajudando o país a lutar contra terroristas manietados pelos EUA.

Enfim onde o império colocou suas botas, não cresceu prosperidade, não melhorou a vida das pessoas, nem ele conseguiu se estabelecer de forma consistente.

A bola da vez é a Palestina e, logo ali na esquina, Taiwan.      

                

 *Professor aposentado das redes públicas e privadas. Especialista em Historia do Brasil. 

 

sábado, 6 de janeiro de 2024

GAZA: Verdadeiro genocídio

 

Verdadeiro genocídio

 


Israel é culpado de verdadeiro genocídio, pelo menos parcial, porque a Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio oferece a seguinte definição no seu Artigo II:

 

“Na presente Convenção, genocídio significa qualquer um dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

 

a) assassinato de membros do grupo;

b) lesão grave à integridade física ou mental dos membros do grupo;

c) submeter deliberadamente o grupo a condições de vida destinadas a provocar a sua destruição física, total ou parcial;

d) medidas destinadas a prevenir nascimentos dentro do grupo;

e) transferência forçada de crianças de um grupo para outro. ”


Deixando de lado o elemento indescritível da “intenção”, é claro que a, b e c se aplicam ao caso palestiniano. Na verdade, à questão colocada pela Time, Raz Segal, um judeu israelita que vive nos Estados Unidos e dirige o programa de estudos do Holocausto e do genocídio na Universidade de Stockton, responde que a operação desencadeada por Netanyahu contra Gaza "é um caso clássico de genocídio". Até mesmo uma comissão de peritos das Nações Unidas conclui que "os palestinianos correm grave risco de genocídio", e o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, tal como muitos líderes árabes, condenou Israel pelos seus crimes de guerra e, explicitamente, pela tentativa de genocídio.

  Alastair Crooke – Esperando por imagens de submissão abjeta que não aparecem A questão é que, nos círculos de Trump de hoje, não só não há...